Já pensou em visitar cemitérios nas suas viagens?

Highgate Cemetery

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Os lugares que a gente menos espera são os que mais nos surpreendem

Tenho sempre isso em mente quando viajo e sei que, incluindo no meu roteiro locais menos tradicionais eu terei a oportunidade de extrair ainda mais o que uma cidade pode me oferecer.

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Highgate Cemetery data uma época onde Londres passava dificuldades em administrar seu alto número populacional e também a alta taxa de mortalidade. Marca também a chegada da Era Vitoriana onde pessoas possuíam uma relação com a morte onde hoje acharíamos estranho ou peculiar. Era quase uma fascínio.

De fato cemitérios são locais que me despertam interesse e pode parecer que assim como a galera da Era Vitoriana, fascinada por morte, eu também seja. Mas a verdade é que encaro cemitério como museu. E o que me fascina é a história no geral.

Fico atenta à arquitetura do local e os monumentos construídos pois assim consigo ter uma ideia de quais eram as crenças, fé e costumes numa determinada época. 

Escrito na lápide: Awaiting Resurrection

Gosto de ler os recados carinhosos deixados nas lápides, a esperança do reencontro pós morte e o cuidado em deixar flores expressando as saudades ainda presente. Em meio a tantos nomes sempre acabo descobrindo alguma história de vida interessante. Quantas vidas ali enterradas e quantas histórias ainda vivas!

Nesse cemitério há mais vida do que possa imaginar. Alguns túmulos estão quase desaparecendo por causa das plantas que tomam conta. Há árvores por todos os lados e flores selvagens.

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Quando visitei o lado oeste do cemitério havia um caminho em meio aos túmulos cheio de maçãs no chão e lembro de ter achado estranho e pensado, “existe uma tradição em jogar maçã no túmulo das pessoas?”. Foi quando olhei pra cima e percebi que estava rodeada de macieiras, era lindo, mas pensei “sair agora daqui antes que eu morra de, pancada de maçã na cabeça”. Hahahaha


O cemitério também é a casa de raposas, texugos, esquilos e morcegos. Corujas, pica-paus e mais de quarenta espécies de passarinhos podem ser encontrados ali.

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Planejado e construído na era Vitoriana (1837-1901), Highgate Cemetery faz parte do projeto que se chama, Sete Magníficos (Magnificent Seven). Esse projeto surgiu para resolver um problema de saúde pública que Londres passava no início do século XIX. A cidade havia se desenvolvido sem estrutura para suportar seus mais de um milhão de habitantes. Doenças estavam matando em série e os cemitérios se concentravam todos no centro da cidade. Por conta da falta de espaço para novas covas corpos eram  enterrados ilegalmente em qualquer local.

Esses enterros eram ilegais e feitos sem a utilização das técnicas necessárias para proteger o solo da decomposição humana, os caixões utilizados não eram bons o suficiente para aguentarem o tempo e as covas não eram profundas o suficiente. Quando aconteciam cheias os corpos transbordavam e acabavam ficando expostos.

Essa situação de calamidade pública fez com que o Parlamento autorizasse Stephen Geary, arquiteto e fundador da The London Cemetery Company, à construir sete jardins cemitérios em regiões rurais de Londres.

Locais dos cemitérios: Kensal Green, West Norwood, Highgate, Abney Park, Brompton, Nunhead e Tower Hamlets.


Lado Oeste de Highgate Cemetery


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Highgate Cemetery (1839), foi o terceiro dos Sete Magníficos a ser construído. Sua estrutura possui muros altos e na época o local era protegido por guardas para evitar que gangs invadissem e roubassem corpos. Pois é, na época havia mais esse problema, comércio de corpos roubados para escolas de medicina.

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Tour guiado – lado oeste do cemitério

Stephen Geary junto com James Bunning (topógrafo) e Ramsey (famoso paisagista) construíram algo que logo seria reconhecido como o principal cemitério da cidade.

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Egyptian Avenue

Diferentes estilos se misturam e uma das ideias foi de construir uma Avenida Egípicia.

Passando na Avenida entre os 24 jazigos para chegar no Circle of Lebanon.

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Um dos espaços mais disputados foi o Circle of Lebanon (Círculo do Cedro do Líbano), jazigos construídos através de escavação ao redor dessa árvore para que pessoas fossem enterradas junto as raízes dessa árvore.

Circle of Lebanon

Na época o cemitério foi um verdadeiro sucesso e era um dos locais mais disputados para enterros. Um cemitério caro onde eram enterrados principalmente pessoas de poder aquisitivo alto.

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Túmulos que abrigam famílias inteiras simboliza o apego familiar e a preocupação de que todos estivessem juntos quando houvesse a reencarnação. Uma crença muito forte na Era Vitoriana.


Uma rápida passada na história de algumas pessoas


Esse é o túmulo do George Wombwell um cara que, de sapateiro se transformou num dos homens mais ricos na Era Vitoriana. Não é toa que há uma estátua de leão em seu túmulo já que o cara enriqueceu expondo animais exóticos em Londres.  Ele comprava animais nativos da Austrália, África e países da América do Sul. Claro que muitos desses animais morriam pois não se adaptavam ao clima frio. O leão da estátua se chamava Nero!

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Thomas Sayers foi lutador de boxe muito famoso na época de 1849-1860. Naquela época não havia no boxe uma divisão de tamanho e peso entre lutadores e Sayers não era um cara muito grande o que resultava de seus oponentes serem sempre muito maiores que ele. Mesmo assim sua carreira foi marcada por 12 vitórias, 1 perda e 3 empates.

Em seu túmulo um English Mastiff.

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Michael Faraday (1791-1867), essa foi a história que mais gostei na minha visita. De família muito pobre precisa parar os estudos aos 13 anos de idade. Logo ele começa a trabalhar, sua função era vender livros e arduamente ele trabalha para impressionar seu chefe e em pouco tempo foi promovido para encadernar livros. Muito curioso, ele aproveita esse contato direto com livros e passa a estudar sozinho. Sua determinação e ambição em aprender foi tamanha que até hoje ele é reconhecido como um dos maiores cientistas do mundo. Michael, ao longo de sua carreira se entregou à pesquisas e experiências trazendo muitos benefícios para o avanço tecnológico. Entre muitas de suas descobertas cabe aqui ressaltar que foi ele quem descobriu a Indução Magnética!

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Julius Beer, nascido na Alemanha, construiu sua carreira de homem de negócios de sucesso na Inglaterra. Banqueiro e dono de um jornal fez sua fortuna na Bolsa de Valores de Londres. Esse mausoléu foi construído para sua filha que morreu aos oito anos de idade. Anos mais tarde ele morre e também é sepultado ali, assim como sua esposa, filho e irmão.


Lado Leste do Cemitério de Highgate


O cemitério era um sucesso e em 1856 é feito uma ampliação construindo novos espaços no lado leste, logo em frente ao primeiro.

Esse lado não possui coisas peculiares como Avenida Egípcia ou um círculo com uma árvore no meio mas possui grandes figuras da história.

Filósofo, jornalista, historiador e socialista, A. Williams a.k.a. Karl Marx, passou a maior parte de sua vida em Londres. Marx utilizava pseudônimos, como escrito acima, para poder assinar contratos de aluguéis e despistar autoridades de Londres

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Monumento construído em 1954

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Esse é o túmulo original de Marx, que foi enterrado em 1883, junto de sua esposa. Túmulo localizado num espaço reservado para agnósticos e ateístas.

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Malcolm McLaren foi artista, músico e empresário de bandas. A primeira banda a gerenciar foi, New York Dolls. Mas sua carreira como empresário se transformou quando ele montou o Sex Pistols.

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Aqui vai um exemplo do que disse no início do post sobre gostar de visitar cemitérios pois sempre acabo aprendendo algo novo da história. Não tinha ainda ouvido falar sobre essa figura brasileira, mas certamente muita gente já ouviu, quem estuda ou trabalha com jornalismo principalmente.

José Carlos Rodrigues foi um jornalista carioca que esteve a frente do Jornal do Comércio e que o fez receber o título de patriarca da imprensa. Carismático e filantrópico, havia uma profunda simpatia por pequenos jornaleiros e não media esforços para ajudar no crescimento pessoal e de negócios das pessoas que ele acreditava.

Morou por vinte anos nos Estados Unidos e nessa época, antes de ser dono do Jornal do Comércio, ele era redator e trabalhava como correspondente. Nessa mesma época ele fundou a revista mensal Novo Mundo para que circulasse no Brasil. Nessa revista ele abordava assuntos gerais incluindo ciências, religião (havia um grande interesse por religião), política e informava sobre avanços e novidades que aconteciam na América do Norte. Muitas dessas matérias que ele abordou na revista ele traduziu para o inglês e publicou na The Nation, uma revista liberal de Nova York.

Em Londres ele conheceu a mulher que seria mais tarde sua esposa. Constituíram uma família, moraram em Paris e foi lá onde ele morreu!

Sua trajetória é longa e cheia de história, foi uma figura muito importante para o Brasil na época, vale a pena ler mais sobre ele.


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Eu amo esses bancos com mensagens carinhosas!

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Parece cenário de filme de terror

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Um pouco de cor nesse cemitério, por favor! 🙂

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Túmulos mais engraçadinhos que saem do gótico e dramático


Crise no Cemitério


Na virada do século houve uma forte mudança nos costumes e pessoas passaram a investir menos dinheiro nos enterros preferindo algo mais simples comparado com que se ostentava no passado.

Com o surgimento da Primeira Guerra houve uma baixa na manutenção desses espaços pois os homens que ali trabalhavam eram recrutados para lutarem na guerra.

Em 1960 o cemitério anuncia falência e os próximos 15 anos são marcados por invasões, roubos e destruição.

Afim de evitar com que houvesse a destruição total desse local histórico é fundado em 1975 o, The Highgate Cemetery Friends, um grupo de pessoas que voluntariamente trabalham na reconstrução e manutenção do cemitério. E é por esse motivo que é necessário pagar para visitar o local pois o dinheiro arrecadado é utilizado exclusivamente para a manutenção e não as pessoas que ali trabalham.


Informações Importantes


Visitas no lado oeste do cemitério apenas com tour guiado. Embora o guia seja voluntário o custo do tour é de 10 libras.

Já o lado leste o valor é de 4 libras e o passeio lá dentro é livre. Mas olha que legal, o ticket comprado para fazer o tour pode ser utilizado para visitar o lado leste! 🙂

Quer saber mais? Dá um check aqui!

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FAQ


1. Não sou gótico(a) posso visitar o cemitério mesmo assim?

R: Pode

2. Fui emo no passado mas hoje sou feliz. Posso visitar o cemitério ainda?

R: Deves

3. Posso acender velas e desenhar um criptograma em cima de algum túmulo?

R: Não

4. Se eu enterrar meu cachorro lá, ele vai ressuscitar?

R: Nope. Tens que levar no cemitério maldito!

Se aqui não encontraste a resposta pra tua dúvida deixe um comentário que logo respondo!

 

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